quinta-feira, 22 de setembro de 2022

The Who, um texto perdido de 2017

 Hora de voltar pro meu quarto nos anos 80.

O disco era de um amigo do colégio. Um The Who ao vivo no Canadá se bem me lembro. 
No repertório daquele show Summertime Blues, Substitute, Love Reign Over Me, Boris the Spyder, Baba O'Riley e outros petardos que me fisgaram na hora. Demorei semanas pra devolver o vinil e tinha esperança de incorporá-lo aos meus, mas não teve jeito.
Lá se foram três décadas, muitos discos e finalmente os assisti. É bem verdade que só dois dos três integrantes que estavam vivos na época deste show do vinil continuam por aqui. Keith Moon era o baterista mais selvagem do rock mas já havia morrido (Kenny Jones era seu substituto). Hoje as baquetas estão na mão de Zak Starkey, um herdeiro da realeza, filho de ninguém menos que Ringo Starr, compadre do Mooney. O rapaz teve escola e é tão competente quanto seus pai e padrinho. John Entwistle, o baixista mais irado do universo, viveu e morreu como quis, um rock star, e faz uma putza falta. Claro que para se tocar com o The Who é preciso colhões e o baixista atual Jon Button segura as linhas absurdas com competência num fender precision bass, mas não é The Ox. Roger Daltrey continua com seus malabarismos com o microfone e sua voz ainda dá conta do recado. Pete Townshend é um selvagem que se recusa a envelhecer quando está com a sua fender stratocaster em punho. Do mesmo calibre de gênios de sua geração tanto em seu instrumento quanto como compositor. Os caras detonaram! Juntos de um time muito competente de músicos, fizeram um showzaço, mesmo errando a introdução de My Generation. Who cares? Foram salvos pelo público embevecido.
I hope I die before I get old não rolou pra eles. Ainda bem! 
Assim, pude ouvir e ver quase todos os seus grandes clássicos em versões matadoras. Um atrás do outro que mal dava pra respirar. Só consigo sentir-me agradecido por assisti-los, ainda vigorosos, modernos, com uma mise-en-scène de cair o queixo. Volto pra casa bem feliz.
Long live rock!

domingo, 22 de maio de 2022

Um textinho perdido

 Parte do nosso mundo, seja ele presente ou passado, vai embora com nossas perdas. Resta-nos continuar, do jeito que der, lambendo as feridas, construindo e desconstruindo relações e a nós mesmos. E pensando, sempre pensando....

O Sol continuará lá, nos dando vida e nos ameaçando dioturnamente, as estações do ano continuarão a mudar e as manhãs, todas elas impiedosamente, virão nos lembrar de tudo, de absolutamente tudo.

sexta-feira, 22 de abril de 2022

A vida pode

A vida pode ser um rascunho mal acabado

ou uma peça bem fechada

com começo, meio e finais bem ajambrados.


A vida pode ser uma viagem infinita

pela busca do imponderável

do amor nunca encontrado


A vida pode ser uma viagem interrompida

na qual cada segundo valeu outra vida













sábado, 22 de janeiro de 2022

Mariana

De volta à Terra dos Papagaios. Este é um lugar comum mas a coisa que mais me encanta em viajar é trocar experiências e conversas com ilustres desconhecidos que dificilmente verei novamente mas que naqueles breves momentos alimentam minha alma (eu não acredito em alma então essa é uma frase retórica) com histórias, experiências que me comovem ou trazem qualquer outro sentimento bacana. Desta vez foram alguns e hoje falarei de Mariana, uma enfermeira argentina que mora em Roma há muitos anos. O começo da interação foi meio tenso: Ela parecia arredia e disse que o casaco da minha mulher a molestava mas com uma caixa de chocolates depois colocados na mesa pela brasiliense-pernambucana tudo já estava bem. Estávamos sentados com mais um casal argentino, Sérgio e Sandra (torcedora fanática de algum time que já esqueci) e muito legais, ambos "informáticos" e com um grau de cinismo e razoabilidade raros se comparados com um brasileiro médio quando se fala de política que foi, claro, parte do assunto. E com Mariana, quando começamos a perguntar feito doidos (é isso o que dá quando se junta um físico e uma jornalista) descobrimos que ela estava fora há muito tempo, desde os anos 70 e que voltou apenas ocasionalmente para sua terra natal neste tempo todo. Fora sequestrada e levada para o centro de tortura dos militares, a famigerada Escola Mecânica da Armada e escapou por pouco de ter sido morta naquelas operações funestas dos milicos hermanos. Foi-se embora e construiu sua vida na Itália e voltar pra ela, já quase sem familiares vivos, era algo agridoce e isso me comoveu durante todo o percurso entre glaciares e icebergs. Que roteiro daria sua vida, fiquei pensando! Já no desembarque, efusivamente nos abraçamos, nos beijamos como se nos conhecêssemos há muito tempo e não mais a tirei de minha cabeça. Ela voltaria pra Roma dois dias depois e a gente seguiria pela patagônia. E eu não poderia concordar mais com ela do que quando lançando um olhar com seus olhos verdes profundos me disse: Macri és un hijo de puta! Mulher de fibra Mariana!