sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Terapia

 Como escrever sobre paternidade sem cair nos lugares comuns? 

Bem esse texto tem muito mais a ver com questões pessoais do que com questões retóricas e genéricas e partem sempre da minha memória.

Meu pai foi sempre muito presente na minha primeira infância. Lembro-me de jogar futebol com ele, dele me ensinar a andar de bicicleta, de ser muito carinhoso e me levar pra fazer de tudo, desde ir ao seu trabalho até as reuniões com famílias e amigos. Com a pré-adolescência e adolescência isso mudou. Minha mãe teve dois avc's num espaço relativamente curto de tempo e ficou com sequelas até o final de sua vida, muito tempo depois. 

Bem, a partir daí eu já estava crescido e me parece que sua racionalização foi que eu já meio que sabia me cuidar e ele tinha que cuidar da minha mãe e também me chamar à responsabilidade de ajudá-lo. Tudo certo quanto à isso. Devo dizer que a família sempre esteve presente e ajudou muito ao longo de todo o tempo, e por isso, serei sempre genuinamente grato à todos eles.

O ponto é que minha relação com meus filhos é diferente. Não faço o que meu pai fazia comigo, não ensinei meus filhos a jogar futebol, a andar de bicicleta. Talvez por contingência da cidade grande onde não há muito tempo livre e a gente se enfia no trabalho e se enche de medo de ir pras ruas com uma magrela ou ainda arruma desculpas pra não ir aos parques. Como sou um pai separado, costumava, antes da pandemia, e ainda no meu primeiro casamento, viajar com o mais velho e depois com os dois. Isso me fazia um bem enorme e é algo que quero retomar assim que possível. Os três nas estradas por uns dias.

 Agora nesse período pandêmico sinto que perdi algum bonde com eles e tenho me tornado o pai que aponta o dedo como o meu fazia comigo na adolescência. Acho bem normal a gente tentar corrigir rumos e não tenho problema em ser o chato da parada desde que isso não se torne regra, mas o fato é que isso tem me mexido comigo e a sensação de ter me tornado o cara velho e sisudo é muito grande. Ando fechado na minha bolha hedonista, um mecanismo recorrente de defesa, fazendo minhas coisinhas mas dei-me conta que é preciso estourá-la  para aproveitar meus filhos e o tempo deles. Por falar em tempo, este inexoravelmente passa e é impiedoso em relação às oportunidades perdidas. Engraçado como determinadas situações nos afetam mais profunda e silenciosamente do que podemos imaginar...

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