quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Crônica de uma pandemia

Incrível como a vida da gente é frágil. Esse é um lugar comum clássico mas usualmente não ligamos muito pra ele até que algo ruim aconteça com alguém próximo da gente, por um lado, ou que sejamos assolados por uma pandemia mundial, do outro, algo que não ocorria há um século. A última foi a gripe espanhola, acho eu.

Bem, eu deixo este espaço meio que mofar por um tempo e seguindo uma sugestão ou uma ironia, sou péssimo pra identificá-las,  resolvi escrever um pouco. A verdade é que as pessoas do meu círculo, cujo raio pode variar imensamente, sabem o que está rolando nesse país. Temos uma pandemia que é um exemplo pro mundo sobre como um governo (e também uma população) não deve agir e temos o próprio governo que é um exemplo inequívoco de um não governo. 

Então, eu fico procurando maneiras de aguentar o tranco, de me viabilizar mentalmente pra atravessar esse período. Cada um tem seu método pra fazer isso, e o meu é meio que exercitar minha consciência de que a vida da nossa população é muito pior do que a minha e também exercitar minhas paciência e empatia. Convenci-me que agora não há nada que eu possa fazer, não sou do setor da saúde, a não ser criar algum tipo de empatia com os problemas dos filhos (estes estão sofrendo muito mais por motivos óbvios) e tentar orientá-los, dar colo, chamar a atenção etc. Há também a dor dos amigos queridos com seus próprios problemas. Eu xingo muito silenciosamente, e outras vezes nem tão silenciosamente as pessoas e instituições que julgo ter responsabilidades pelo merdelê. A hora do noticiário é minha predileta mas sou reprimido pela minha mulher que quer ouvi-lo. Tento rir e fazer piada de um monte de coisas, sejam boas ou ruins, e tentar lembrar do moleque que passou boa parte do seu tempo no quarto rodeado por livros e discos. Sim, esses gadgets antigos ainda são meu passatempo predileto. E claro, fazer música, minha música que ninguém conhece e poucos ouviram e  ouvirão é sempre uma onda legal. Brincar de compositor ajuda e tenho prazer em colaborar com quem quer que seja. Não vai sobrar muito mais de mim quando minha vida terminar e talvez, com este hobby, sobre algum registro...

Uma amigona me disse que não serve pra nada a gente se desesperar e ficar muito preocupado nesse momento. Acho muito sábio a gente exercitar o óbvio. Perdemo-nos nas vicissitudes do cotidiano e esquecemos muitas vezes de olhar o que realmente importa. Atualmente me lamento pelo oba-oba que está ocorrendo em relação àquelas pessoas que acham que a pandemia acabou e que todos estamos livres do vírus. Isso com uma média móvel de 1000 mortes/dia. Tudo poder virar um outro pesadelo rapidamente se não houver cuidado com o outro e responsabilidade, muita responsabilidade. 

Sinto falta dos abraços, dos sorrisos, dos vinhos compartilhados, do papo bobo ou um pouco mais esperto. Sinto falta de gente que já morreu. Sinto falta, mas ao mesmo tempo parece que a vida sempre foi isso. Acho as conversas por aplicativos um saco e normalmente mal educadas. Quem nunca deixou e foi deixado falando sozinho que atire a primeira pedra. É o preço da modernidade elevada a uma pandemia.

Não acredito que a humanidade sairá melhor do que entrou dessa situação. Choraremos nossos mortos, ficaremos indignados mas a vida vai continuar. Talvez mudem as relações de trabalho e com isso casamentos podem acabar, afinal quem aguentaria viver 24h com seu marido/mulher e ainda gerenciar os filhos dentro de casa? Não há grandes lições que serão aprendidas a não ser o exame que cada um fará de si mesmo, se é que fará...






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