Nesses tempos pandêmicos é inevitável sentir algum tipo de angústia. Ando assim nesses últimas dias. Sempre fui muito estradeiro e de ter poucas paradas na vida e qualquer calmaria me dá solidão como diz a música do Moska. Claro que com o merdelê mundial vi-me na obrigação e obviamente tive possibilidade de fazer tudo de casa, de manter o distanciamento social, etc. Mas o que que pega no momento é a falta da estrada, mesmo que seja uma viagem curta.
Sempre gostei de dirigir em estradas. Elas tem me curado de muitas maneiras na minha fase adulta, seja por me ajudar a lamber as feridas de um amor findo, celebrar um novo, passar pelo luto da morte dos meus pais, a celebrar o nascimento dos meus filhos e melhor ainda, dividir a viagem com eles, sempre com trilhas sonoras e paisagens pelo caminho. Chego no destino melhor do que saio, invariavelmente.
Bem, há algumas possibilidades de caminhos pra minha terra natal. Então não falo de uma estrada específica pois ao longo da minha vida, percorri todas as rotas possíveis, mesmo que nem sempre tomasse o caminho mais curto até lá. Há sim trechos específicos em cada uma delas que são terapêuticos. Moro em São Paulo há tempos e sair daqui é sempre um parto por conta do trânsito. Então não conto a Bandeirantes, Anhanguera ou Fernão Dias que são as três principais auto-estradas que levam para as estradas menores e, é dessas que quero falar.
Saindo pelas duas primeiras há trechos fantásticos na estrada que liga Itatiba à Serra Negra (SP-360 talvez). O pôr do Sol, ou seu nascer, aliados à vista do Alto da Serra de um platô que fica entre Morungaba e Amparo sempre me trouxeram felicidade instantânea. Acho que essa sensação tem a ver com vislumbrar a terra natal, a chegada na casa dos velhos, ou a saída pro mundo, deixando tudo pra trás. São trechos bucólicos de absoluta beleza. E embora tenha perdido meus pais, e a terra natal tenha ficado pra trás, a sensação que ficou na memória é essa. Há ainda túneis formados por bambus no trecho que liga Itatiba à Morungaba. A luz do Sol entrando por entre as frestas desse túnel é algo que pra ser sentido, não explicado. E ainda lembro literalmente da mudança de ares ao atravessar a divisa entre Amparo e Serra Negra. Eu sabia que já estava em casa a partir desse trecho. Inúmeras viagens e inúmeras sensações e expectativas formam um arco-íris de sentimentos, reforçados pela memória afetiva.
Pela Fernão Dias ou vindo pela Dom Pedro I, via Atibaia, após Bragança Paulista sempre gostei da estradinha que a liga até Amparo, cheia de curvas com formações rochosas muito interessantes. Os dois lados das viagens são igualmente belos. Ainda há a possibilidade de seguir em frente em direção à Socorro e pegar a saída pra Pinhalzinho ou ainda seguir em frente e chegar em Lindóia até a subida final para Serra Negra. A primeira é, ou era, bem pouco movimentada e o caminho passa pelo bairro dos Mostardas, trilhos e uma estação da antiga Mogiana, suponho. Por alguma razão essa estrada me leva para as minhas influências musicais mineiras e a primeira imagem que vem é de Encontros e Despedidas do Milton, " chegar e partir são dois lados da mesma viagem" diz a letra. Já a segunda, me leva pra adolescência onde havia shows de rock nacional no Batuk, uma casa noturna que existia por ali nos anos 80 e onde quase todo mundo importante da cena rock Brasil tocou. Tempos românticos e ingênuos.
Ao longo da vida passei por inúmeras outras estradas belíssimas mas essas são minhas estradas do Sol, minhas companheiras nos diversos momentos da minha vida e sem dúvida, interlocutoras silenciosas que se tivessem consciência me conheceriam como ninguém. Gosto de achar que divido minha vida com elas...