"Os olhos apagados acendem na escuridão da memória
as mãos dançam no tecido do espaço-tempo
o torso se dobra, o corpo lembra
Ela se deixa levar pelos movimentos
voltando no tempo pra viver mais uma vez
pra ser feliz, pela última vez"
Aqui uso minha memória afetiva pra falar sobre música, amor e outros temas.
"Os olhos apagados acendem na escuridão da memória
as mãos dançam no tecido do espaço-tempo
o torso se dobra, o corpo lembra
Ela se deixa levar pelos movimentos
voltando no tempo pra viver mais uma vez
pra ser feliz, pela última vez"
Lembro-me bem do dia quando sua mãe me contou que estava grávida que pensei comigo que minha vida não seria mais minha. Foi uma mistura de medo e encantamento, de insegurança, de quase paralisia. Logo eu que nunca havia pensado seriamente sobre a paternidade.
O Sol se pondo no mar traz memórias
de um tempo em que o amor era simples,
onde o querer era certo
A luz decompondo-se em possibilidades
reflete dourada na água
e me traga pro fundo dos seus olhos ressacados,
Sonho,
A estrada ainda está lá,
as músicas lembro de cor,
os sorrisos escancaram a alma
e não há limites pro querer
Mas a viagem é sinuosa, sempre é,
e o Sol desistiu de dormir no mar,
escondeu-se atrás das nuvens
Acordo,
continuo em frente,
refaço o caminho,
em outro universo,
onde os amantes continuam sua jornada
a estrada ainda está lá,
e tudo está bem...
O rosto
iluminado pelo sol madrilenho
Os olhos
claros, refletem todo o universo
A pele
conta a história do verão andaluz
Os cabelos
da cor do girassol de Borges
A roupa
florida denuncia o estado de espírito,
O retrato,
de uma alma livre
Ao observador,
perdido no tempo e no espaço
resta o sonho...
Nesses tempos pandêmicos é inevitável sentir algum tipo de angústia. Ando assim nesses últimas dias. Sempre fui muito estradeiro e de ter poucas paradas na vida e qualquer calmaria me dá solidão como diz a música do Moska. Claro que com o merdelê mundial vi-me na obrigação e obviamente tive possibilidade de fazer tudo de casa, de manter o distanciamento social, etc. Mas o que que pega no momento é a falta da estrada, mesmo que seja uma viagem curta.
Sempre gostei de dirigir em estradas. Elas tem me curado de muitas maneiras na minha fase adulta, seja por me ajudar a lamber as feridas de um amor findo, celebrar um novo, passar pelo luto da morte dos meus pais, a celebrar o nascimento dos meus filhos e melhor ainda, dividir a viagem com eles, sempre com trilhas sonoras e paisagens pelo caminho. Chego no destino melhor do que saio, invariavelmente.
Bem, há algumas possibilidades de caminhos pra minha terra natal. Então não falo de uma estrada específica pois ao longo da minha vida, percorri todas as rotas possíveis, mesmo que nem sempre tomasse o caminho mais curto até lá. Há sim trechos específicos em cada uma delas que são terapêuticos. Moro em São Paulo há tempos e sair daqui é sempre um parto por conta do trânsito. Então não conto a Bandeirantes, Anhanguera ou Fernão Dias que são as três principais auto-estradas que levam para as estradas menores e, é dessas que quero falar.
Saindo pelas duas primeiras há trechos fantásticos na estrada que liga Itatiba à Serra Negra (SP-360 talvez). O pôr do Sol, ou seu nascer, aliados à vista do Alto da Serra de um platô que fica entre Morungaba e Amparo sempre me trouxeram felicidade instantânea. Acho que essa sensação tem a ver com vislumbrar a terra natal, a chegada na casa dos velhos, ou a saída pro mundo, deixando tudo pra trás. São trechos bucólicos de absoluta beleza. E embora tenha perdido meus pais, e a terra natal tenha ficado pra trás, a sensação que ficou na memória é essa. Há ainda túneis formados por bambus no trecho que liga Itatiba à Morungaba. A luz do Sol entrando por entre as frestas desse túnel é algo que pra ser sentido, não explicado. E ainda lembro literalmente da mudança de ares ao atravessar a divisa entre Amparo e Serra Negra. Eu sabia que já estava em casa a partir desse trecho. Inúmeras viagens e inúmeras sensações e expectativas formam um arco-íris de sentimentos, reforçados pela memória afetiva.
Pela Fernão Dias ou vindo pela Dom Pedro I, via Atibaia, após Bragança Paulista sempre gostei da estradinha que a liga até Amparo, cheia de curvas com formações rochosas muito interessantes. Os dois lados das viagens são igualmente belos. Ainda há a possibilidade de seguir em frente em direção à Socorro e pegar a saída pra Pinhalzinho ou ainda seguir em frente e chegar em Lindóia até a subida final para Serra Negra. A primeira é, ou era, bem pouco movimentada e o caminho passa pelo bairro dos Mostardas, trilhos e uma estação da antiga Mogiana, suponho. Por alguma razão essa estrada me leva para as minhas influências musicais mineiras e a primeira imagem que vem é de Encontros e Despedidas do Milton, " chegar e partir são dois lados da mesma viagem" diz a letra. Já a segunda, me leva pra adolescência onde havia shows de rock nacional no Batuk, uma casa noturna que existia por ali nos anos 80 e onde quase todo mundo importante da cena rock Brasil tocou. Tempos românticos e ingênuos.
Ao longo da vida passei por inúmeras outras estradas belíssimas mas essas são minhas estradas do Sol, minhas companheiras nos diversos momentos da minha vida e sem dúvida, interlocutoras silenciosas que se tivessem consciência me conheceriam como ninguém. Gosto de achar que divido minha vida com elas...
Como escrever sobre paternidade sem cair nos lugares comuns?
Bem esse texto tem muito mais a ver com questões pessoais do que com questões retóricas e genéricas e partem sempre da minha memória.
Meu pai foi sempre muito presente na minha primeira infância. Lembro-me de jogar futebol com ele, dele me ensinar a andar de bicicleta, de ser muito carinhoso e me levar pra fazer de tudo, desde ir ao seu trabalho até as reuniões com famílias e amigos. Com a pré-adolescência e adolescência isso mudou. Minha mãe teve dois avc's num espaço relativamente curto de tempo e ficou com sequelas até o final de sua vida, muito tempo depois.
Bem, a partir daí eu já estava crescido e me parece que sua racionalização foi que eu já meio que sabia me cuidar e ele tinha que cuidar da minha mãe e também me chamar à responsabilidade de ajudá-lo. Tudo certo quanto à isso. Devo dizer que a família sempre esteve presente e ajudou muito ao longo de todo o tempo, e por isso, serei sempre genuinamente grato à todos eles.
O ponto é que minha relação com meus filhos é diferente. Não faço o que meu pai fazia comigo, não ensinei meus filhos a jogar futebol, a andar de bicicleta. Talvez por contingência da cidade grande onde não há muito tempo livre e a gente se enfia no trabalho e se enche de medo de ir pras ruas com uma magrela ou ainda arruma desculpas pra não ir aos parques. Como sou um pai separado, costumava, antes da pandemia, e ainda no meu primeiro casamento, viajar com o mais velho e depois com os dois. Isso me fazia um bem enorme e é algo que quero retomar assim que possível. Os três nas estradas por uns dias.
Agora nesse período pandêmico sinto que perdi algum bonde com eles e tenho me tornado o pai que aponta o dedo como o meu fazia comigo na adolescência. Acho bem normal a gente tentar corrigir rumos e não tenho problema em ser o chato da parada desde que isso não se torne regra, mas o fato é que isso tem me mexido comigo e a sensação de ter me tornado o cara velho e sisudo é muito grande. Ando fechado na minha bolha hedonista, um mecanismo recorrente de defesa, fazendo minhas coisinhas mas dei-me conta que é preciso estourá-la para aproveitar meus filhos e o tempo deles. Por falar em tempo, este inexoravelmente passa e é impiedoso em relação às oportunidades perdidas. Engraçado como determinadas situações nos afetam mais profunda e silenciosamente do que podemos imaginar...
Incrível como a vida da gente é frágil. Esse é um lugar comum clássico mas usualmente não ligamos muito pra ele até que algo ruim aconteça com alguém próximo da gente, por um lado, ou que sejamos assolados por uma pandemia mundial, do outro, algo que não ocorria há um século. A última foi a gripe espanhola, acho eu.
Bem, eu deixo este espaço meio que mofar por um tempo e seguindo uma sugestão ou uma ironia, sou péssimo pra identificá-las, resolvi escrever um pouco. A verdade é que as pessoas do meu círculo, cujo raio pode variar imensamente, sabem o que está rolando nesse país. Temos uma pandemia que é um exemplo pro mundo sobre como um governo (e também uma população) não deve agir e temos o próprio governo que é um exemplo inequívoco de um não governo.
Então, eu fico procurando maneiras de aguentar o tranco, de me viabilizar mentalmente pra atravessar esse período. Cada um tem seu método pra fazer isso, e o meu é meio que exercitar minha consciência de que a vida da nossa população é muito pior do que a minha e também exercitar minhas paciência e empatia. Convenci-me que agora não há nada que eu possa fazer, não sou do setor da saúde, a não ser criar algum tipo de empatia com os problemas dos filhos (estes estão sofrendo muito mais por motivos óbvios) e tentar orientá-los, dar colo, chamar a atenção etc. Há também a dor dos amigos queridos com seus próprios problemas. Eu xingo muito silenciosamente, e outras vezes nem tão silenciosamente as pessoas e instituições que julgo ter responsabilidades pelo merdelê. A hora do noticiário é minha predileta mas sou reprimido pela minha mulher que quer ouvi-lo. Tento rir e fazer piada de um monte de coisas, sejam boas ou ruins, e tentar lembrar do moleque que passou boa parte do seu tempo no quarto rodeado por livros e discos. Sim, esses gadgets antigos ainda são meu passatempo predileto. E claro, fazer música, minha música que ninguém conhece e poucos ouviram e ouvirão é sempre uma onda legal. Brincar de compositor ajuda e tenho prazer em colaborar com quem quer que seja. Não vai sobrar muito mais de mim quando minha vida terminar e talvez, com este hobby, sobre algum registro...
Uma amigona me disse que não serve pra nada a gente se desesperar e ficar muito preocupado nesse momento. Acho muito sábio a gente exercitar o óbvio. Perdemo-nos nas vicissitudes do cotidiano e esquecemos muitas vezes de olhar o que realmente importa. Atualmente me lamento pelo oba-oba que está ocorrendo em relação àquelas pessoas que acham que a pandemia acabou e que todos estamos livres do vírus. Isso com uma média móvel de 1000 mortes/dia. Tudo poder virar um outro pesadelo rapidamente se não houver cuidado com o outro e responsabilidade, muita responsabilidade.
Sinto falta dos abraços, dos sorrisos, dos vinhos compartilhados, do papo bobo ou um pouco mais esperto. Sinto falta de gente que já morreu. Sinto falta, mas ao mesmo tempo parece que a vida sempre foi isso. Acho as conversas por aplicativos um saco e normalmente mal educadas. Quem nunca deixou e foi deixado falando sozinho que atire a primeira pedra. É o preço da modernidade elevada a uma pandemia.
Não acredito que a humanidade sairá melhor do que entrou dessa situação. Choraremos nossos mortos, ficaremos indignados mas a vida vai continuar. Talvez mudem as relações de trabalho e com isso casamentos podem acabar, afinal quem aguentaria viver 24h com seu marido/mulher e ainda gerenciar os filhos dentro de casa? Não há grandes lições que serão aprendidas a não ser o exame que cada um fará de si mesmo, se é que fará...