quinta-feira, 23 de maio de 2019

Tristesse

Parte do nosso mundo, seja ele presente ou passado, vai embora com nossas perdas mesmo que nossa memória continue trabalhando. Resta-nos continuar do jeito que der, lambendo as feridas, nos construindo e desconstruindo e também nossas relações. A ordem nasce da desordem e também a desordem pode vir a partir da ordem. 
As coisas da vida parecem ser assim.
Sabemos que o Sol continuará orbitando em torno do centro da Via Láctea, nos dando vida e nos ameaçando dioturnamente e, também que as estações do ano continuarão a mudar enquanto envelhecemos. Mas as manhãs, no entanto,  todas elas impiedosamente virão nos lembrar de tudo, absolutamente tudo.

Despedida de um amigo

Eu o conheci entre 86 e 87 através do Adilson Fagundes se não me falha a memória.
Acho que já conhecia seu filho mais velho, o André, da escola. Lembro-me que logo engatamos de tocar os quatro e também da afinidade instantânea, tanto musical, quanto nos humores.
Kenji sabia tudo de música, era excelente guitarrista e pianista. Ensinou-me muito sobre os Beatles que eu tanto adorava; em particular os solos de Can't buy me love e Get Back aprendi a partir de suas dicas. Aliás, ele tinha três relíquias dessa época: Uma guitarra e um baixo Giannini e um amplificador True Reverber, um clássico baseados nos Fenders, da mesma empresa.
Além disso, suas histórias da época em que tocava nas noites de São Paulo, Santos e com a turma da Jovem Guarda eram, e ainda são, impagáveis de hilárias. E é assim que vou me lembrar dele, da sua generosidade, do acolhimento que tive da sua linda família, das risadas, das aventuras tocando pelos hotéis, restaurantes e festas privadas de Carnaval em Serra Negra e, claro, das tardes jogando conversa fora em sua oficina onde os assuntos eram os mais variados, sempre no meio dos barulhos dos carros em que estava trabalhando. 
Em especial, uma história que se repetia invariavelmente, quando estávamos mais envolvidos com música brasileira junto com o Ronaldo Blotta, era que Kenji sempre perguntava como uma determinada música era, imediatamente antes de começarmos. Em geral era alguma bossa nova, como Desafinado ou Samba de uma Nota Só. Ele nunca se lembrava imediatamente e a frase era, em meio ao sorriso largo e meio desajeitado junto com uma coçada na cabeça "Ih, agora afundou...", que eu acho que ele tomou emprestada ou roubou de um outro músico local. Nunca afundamos e sempre tocamos direitinho. 
Também não posso deixar de mencionar os meses de julho onde nos preparávamos com algumas formações distintas para os festivais de MPB. Se me lembro bem fizemos isso de 1988 até 1991. Foram noites de música, amizade, amor e tantas outras histórias que ficarão pra sempre em minha memória. 
Não me encontrava com ele fazia algum tempo mas o acompanhava, na medida do possível, à distância. Falávamos em nos ver aqui em São Paulo, mas nunca aconteceu, infelizmente. 
Não sou religioso mas gostaria de dizer, parafraseando o Guimarães Rosa, que o Kenji ficou encantado. Tenho certeza disso pela pessoa que ele era e pela vida divertidíssima que levou.  Então, descanse agora meu amigo e obrigado por tudo!

segunda-feira, 6 de maio de 2019

A gente nunca sabe

Meu pai viveu 81 anos de uma vida bem divertida e também bastante abnegada cuidado da minha mãe e de mim, do jeito dele, do jeito que era possível pra alguém dos anos 30. 
Quando ela morreu, há 20 anos, eu estava segurando sua mão. Ele, de tanto amor, não conseguiu vê-la partir. Quando ele morreu, eu tinha saído do hospital pra resolver umas coisas e não estava ao seu lado. Isso não me assombra, mas eu gostaria mesmo de ter estado lá e segurado sua mão. Eu já havia dito o quanto o amava e acertado minhas contas. 
Embora eu soubesse que ele estava chegando ao fim, não achava que seria naquele dia, ontem fez 10 anos, e lembrei exatamente na mesma hora, quando estava voltando do trabalho.

Tudo foi resolvido rapidamente e ele foi enterrado tendo tanto quanto o possível com os familiares mais próximos na cerimônia. Talvez ele quisesse mais gente mas não deu, eu não quis continuar com aquilo tudo. 

Sonho com ele e com minha mãe também e isso é bom, não há tristeza, não há coisas mal resolvidas, só uma saudade boa e um guia moral que não é perfeito, mas que espero seguir com tranquilidade até que chegue minha hora. A gente nunca sabe quando vai ser.

quinta-feira, 2 de maio de 2019

Bituca, 30 anos depois

Meu primeiro encontro com ele foi no final de 88 no Olímpia. Terno e boné brancos, seu violão e um showzaço com o repertório predominantemente dos anos 80. Pouco mais de 30 anos e reencontrei-o hoje, ainda de boné mas com suas tranças lindas e todo colorido. Posso dizer que valeu cada segundo do meu tempo e como eu queria que o tempo tivesse parado ali. Milton continua um gigante com voz e figura belíssimas. Desta vez, com o repertório dos discos que vão do Clube de Esquina até o Clube de Esquina 2 e uma banda pra lá de azeitada, o cara começou com Tudo que você podia ser, dominou o público com Nada Será como Antes e arrebentou nossos corações com Cais, meu primeiro choro da noite. E seguiu com um repertório de alegrar e aquecer o coração ao mesmo tempo que nos faz refletir sobre o que poderíamos ter sido e não fomos. Homenageou seus parceiros do Clube, em especial o seu gêmeo e gênio musical Lô Borges. Nos trouxe momentos agridoces e esperançosos de que podemos virar este jogo. Com Ponta de Areia tocada em uma sanfona, na versão mais bela que ouvi, volto pro meu quarto de adolescente quando descobri o disco Minas. A nostalgia me venceu e chorei de novo. Paula e Bebeto e Maria Maria fizeram de mim uma montanha russa emocional que se estabilizou com a chegada do Trem Azul do qual nunca mais quero sair depois de reve-lo. Estou certo de que esta noite vi algo que permanecerá comigo até o fim dos meus dias. Vi uma lenda de nossa música fazendo história. Viva muito Bituca!