sexta-feira, 26 de outubro de 2018

A seleção de 70, texto perdido

Quando era moleque e nem tv colorida a gente tinha em casa, meu pai me contava histórias da seleção brasileira, em especial, da seleção do tri. Estávamos longe do tetra ainda. Lembro-me que um tempo depois quando já tínhamos uma tv colorida, a copa de 70 foi reprisada na tv cultura. Nossa! Assisti todos os jogos na íntegra (se não me engano foi a primeira copa transmitida mundialmente em cores) e ainda hoje tenho fotografado na cabeça a genialidade daquele time em campo.
Os quase gols do Pelé, que se tivessem sido teriam estragado tudo pois toda vez que assisto ainda perco a respiração; as defesas impossíveis do Banks, e também do Felix; a força do Jairzinho, os lançamentos do Gérson, os dribles do Clodoaldo e por aí vai. Mas um gol, em especial, nunca me saiu da cabeça. O gol do Capita, Carlos Alberto Torres, recém falecido. Aquele gol pra mim, sintetiza a perfeição do futebol, do jogo coletivo, da genialidade individual também. São lances que minha memória, até o último dia, vai teimar em lembrar como se eu estivesse lá no México.
Na medida em que aqueles monstros sagrados do futebol vão nos deixando, ou me deixando, o jogo vai perdendo a graça. Imagino que por conta das lacunas que vão ficando na memória afetiva e também das comparações sempre injustas que fazemos com o cenário atual. Sempre acho que nenhum super craque atual chega aos pés do mais perna de pau da copa de 70. Definitivamente não era o caso do Capita que foi, junto com Djalma Santos, o melhor lateral direito que não vi jogar.

terça-feira, 16 de outubro de 2018

McCartney, um texto perdido

Deixem-me levá-los com minha memória pra tentar explicar o que não pode ser explicado, somente sentido.
Depois de 13 anos sem excursionar, tendo a morte do Lennon e a prisão no Japão ocorridos neste ínterim, eis que McCartney sai em turnê, e melhor, viria pro Brasil. Eu tinha 18 anos e estava no primeiro ano da universidade. Convenci meu pai a me deixar ir e tinha todo o esquema pronto com alguns colegas do Rio para a compra do ingresso e hospedagem. Serei eternamente grato aos dois por isso. O show era do disco Flowers in the Dirt, discaço do final da década de 80. Ansiedade total! O baixo do início do show era um Wal 5 cordas, o que me decepcionou um pouco pois esperava o Rickenbacker 4001 número de série DA23. Mas eis que surge em This One o icônico Hofner 501 '62. Depois de um hit atrás do outro até o final apoteótico com a mesma sequência tocada hoje eu estava plenamente saciado. É aquela história da uma campanha publicitária: a primeira vez a gente nunca esquece.
No final de 93, foi a vez de Sampa. Período feliz da minha vida! Mais um showzaço no Pacaembú. Mais felicidade!  Em toda a despedida, McCartney diz até a próxima mas eu duvidada que o assistiria de novo.
Mais um hiato marcado pela morte de Linda e de George e, 17 anos depois, ele volta ao Brasil pra iniciar uma sequência de vindas bem sucedidas. A vida tinha mudado, eu tinha mudado, mas minha devoção de beatlemaníaco ao mais trabalhador dos 4, não. Ao final de cada show eu achava que ia ser a última vez. Despedia-me em silêncio mas plenamente satisfeito e com a adrenalina a mil.
Desta vez, depois de 3 anos, a nova turnê aterrisou mais uma vez em SP e a coisa mais legal de todas é que pude dividir a experiência com meu filho mais velho, o qual, dias antes, flagrei ouvindo os Beatles de braços abertos e rodopiando pelo escritório. Contentamento é a palavra! Ver o moleque se divertindo, cantando, batendo os pés e palmas com um roteiro que eu conheço de cor, me causou nada menos do que a mesma sensação de 27 anos antes. É como se a trilha sonora da minha vida tivesse sido passada adiante. Não é mais minha; meu "DNA musical" foi transmitido eficientemente e pelo andar da carruagem, para além do meu primogênito, para minha filha mais nova, que ainda não pôde ir, mas já adora os Beatles. Se ela vai ter a chance de assistir ao McCartney eu não sei. Só espero que exista uma próxima vez. 
Aliás, ao término do show, impecável como sempre, meu filho já queria saber quando o levarei ao próximo. Só tenho que agradecer ao Paul, um dos inventores do rock moderno, junto com John, George e Ringo, pelas inúmeras viagens mágicas.