sábado, 9 de junho de 2018

Reflexo

O vento corta o rosto envelhecido
 cuja vida é refletida na janela de um ônibus vagabundo

sábado, 2 de junho de 2018

Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band

Grande parte das descobertas de um hoje quarentão aconteceram na década de 80. O Sgt. Pepper's entrou na minha vida deste jeito, talvez em 81. Lembro-me que neste caso específico, o disco foi um presente de minha mãe ( Sempre ela falando comigo depois de tanto tempo ). Eu já conhecia os Beatles e tentava colecionar os discos em ordem cronológica da banda. Havia um ritual específico que mantive até terminá-la. A cada nova aquisição, eu colocava os que já tinha, apagava as luzes do quarto e ouvia todos os anteriores novamente até finalmente chegar ao meu novo disco. Desta maneira eu aprendia e me espantava com a evolução musical da banda e, o que é mais surpreendente, num período de 5 anos desde o lançamento do Please, Please me. Os anteriores, Rubber Soul e Revolver anunciavam uma guinada no som dos caras. Mas eu não poderia imaginar o que escutaria a seguir.
Sons de uma platéia ansiosa, uma guitarra rasgada tocada pelo Paul McCartney, num vocal super roqueiro como poucos sabem fazer ainda hoje e minhas portas da percepção continuavam a se expandir. Rock com banda sinfônica, como assim? Entra Billy Shears, ou Ringo, cantando como nunca with a little help from his friends. Apoiando as camadas melódicas, um baixo ainda mais melódico pontua toda a música. A seguir, sons etéreos de um Lowrey DSO Heritage Deluxe tocado por McCartney, com um Lennon inspiradíssimo me deixam ao lado de Lucy no céu com diamantes. A âncora que mantém a viagem firme ou meus pés no chão, é o baixo Rickenbacker de McCartney indo pra uma direção totalmente independente da melodia. Um outro riff de guitarra marcante junto com baixo e baterias sofisticadíssimos dão suporte a vocais de apoio que só eles sabiam fazer. It's Getting Better all the time, e só poderia estar mesmo naquela época.
Com Fixing a Hole, She's Leaving Home e Mr. Kite, Lennon e McCartney alternam-se em genialidade com suas canções-crônicas. A primeira uma ode à psicodelia das coisas simples, a segunda uma canção de despedida, talvez da inocência de uma garota que sai da casa dos pais. Já Mr Kite, baseada em um cartaz de circo, me leva pra dentro da magia deste universo. Só Lennon poderia ter feito isso.
Entra George Harrison, atingindo o topo de sua fase indiana com Within you, Without you. Uma meta viagem musical que dá consistência às composições de seus companheiros e de certo modo, cola os lados do velho vinil, transformando-o em algo contínuo, fluido.
Paul McCartney, com When I'm 64, volta para música de um dos períodos que moldou sua formação musical celebrando lindamente, com sabedoria e ternura o envelhecimento a dois. Quanta sorte tem os casais que chegam nesta fase da vida do modo descrito na letra da canção.
Lovely Rita vem pra estourar de vez meus miolos. Um dos baixos mais sofisticados de McCartney com inúmeros acidentes na clave e novamente com uma melodia independente da música. O cotidiano fica absurdamente colorido. 
A reprise de Sgt. Pepper's, roqueira, nos prepara para o que vem a seguir. O grand finale de Lennon com um interlúdio de McCartney que rege a orquestra que vai ao infinito aleatoriamente nas notas. A Day in the Life que nos deixa totalmente rendidos, maravilhados e absolutamente convictos que o mundo da música jamais seria o mesmo, como se comprovou, e depois deste disco. 
Um crítico da época disse que Sgt. Pepper's foi um barômetro daquele tempo. Sem dúvida ele estava certo. Ninguém até hoje conseguiu descrever de maneira tão grandiosa o Zeitgeist dos 60s. Talvez por isso, este disco continue 50 anos depois sendo tão relevante para as novas gerações. Hoje vista como música clássica a obra dos Beatles permanecerá ainda por muitos séculos. Dentro dela, o Clube dos Corações Solitários do Sargento Pimenta continuará a nos maravilhar...