sexta-feira, 18 de maio de 2018

Tempo Lírico


Uma das consequências da segunda lei da Termodinâmica consiste no fato de o tempo ter uma direção bem definida. Felizmente, nosso cérebro teima em viola-la, de tal maneira que sempre podemos voltar ao passado para relembrar um pouco de nossa história, que na maioria das vezes foi bem menos interessante do que gostamos de relatar;  assim somos nós, seres humanos.
Início dos anos 80, meu pai, Seu Fernando, obriga-me a estudar música na escola municipal, sob a então batuta do Maestro Fioravante Lugli. Meu velho queria que eu fosse trompetista.  E lá fui eu, muito a contragosto, imaginando algum plano mirabolante para me livrar daquilo pois quando se tem 10 anos a última coisa que se quer é fazer algo que esperam que você faça, acredite-me caro leitor. Obviamente a postura e fisionomia rígida do velho maestro (com todo o carinho do mundo) me assustava. Para minha surpresa acabei tomando gosto, muito gosto, pela coisa e, alguns poucos anos depois, estava pronto para encarar a Corporação Musical Lira Serra Negra. Se não fosse pela doçura, paciência e acima de tudo, caráter do meu mestre eu teria abandonado as aulas, muito provavelmente. A partir desta convivência, um mundo novo se abriu, literalmente, e a música nunca mais deixaria de fazer parte da minha vida, de outras maneiras é bem verdade e que valem outras histórias. Mas voltemos à Lira.
Primeira noite de ensaio, se não me falha a memória, quinta-feira. O primeiro trompetista resolve não ir ao ensaio e vejo-me com uma partitura, uma peça chamada Morres de Amores, que sozinho eu sabia que era capaz de debulhar. E sob a batuta do maestro João Corato ( outro gigante da música de Serra Negra ), eu não consegui tocar uma única nota. Quem morreu, mas de vergonha, fui eu. Obviamente, faltava-me a noção do que era tocar em grupo. Mas não desisti e, embora atordoado pela minha inépcia, fiz disso um desafio e melhorei gradativamente, tendo conseguido ser um tocador de trompete razoável durante meu tempo por lá.
Mas o que eu quero mesmo relatar era o clima de amizade, companheirismo (brigas ocorriam também, como em toda família ) que havia e quero crer, continua ‘inda hoje. A acolhida que recebi dos mais antigos, e daqueles nem tão antigos assim, foi fundamental e guio-me até hoje pelo exemplo de gentileza que recebi. Nem que eu quisesse, conseguiria esquecer das festas pela cidade e pelos bairros mais afastados, das alvoradas ( acordando a cidade toda, que imagino não ficava tão feliz quanto eu estava ), das procissões da sexta-feira da paixão ( em uma delas deixamos o pároco da época rezando sozinho e corremos para nos abrigar da chuva forte ), das festas de Santa Cecília nas quais o velho Schiavo, à medida que ia aumentando seu entusiasmo, diminuia sua fantástica clarinete até tocar maxixes e choros só com a boquilha; lembro-me que ficava maravilhado e cheguei a acha-lo uma espécie de bruxo musical. Poucas vezes na vida senti-me parte de algo e, nestes anos da Lira, a sensação foi exatamente essa.
O tempo passou e, quase uma década depois de ter começado a estudar música, saí da casa dos meus pais para estudar,  ganhar o mundo, viver outras vidas e outros amores. Era hora de deixar meus companheiros e seguir minha viagem sozinho. No entanto, as marcas que este período, que estas pessoas, me deixaram sempre serão como cicatrizes das quais a gente se orgulha! Até hoje não consigo ver a banda sem me emocionar. Parte do que eu sou, das minhas experiências fundamentais, eu devo a estes valorosos homens simples, alguns não mais entre nós, outros ainda nos emocionando aos domingos na praça João Zelante ou pelas ruas da cidade, com sua música maviosa. Não citarei mais nomes para não cometer qualquer injustiça. Todos foram importantes e os reverencio amorosamente.
E tudo isto, só ocorreu pois sou um serra-negrense ou serrano, ou ainda serráqueo, como diz minha prima Cilene, e cuja denominação errada é a que eu mais gosto. Explico-me: voltar para Serra Negra é sempre como voltar para o meu mundo particular, para o meu planeta, onde minhas raízes mais profundas e boas estão.  É como voltar para algo fundamental que eu não sei definir precisamente.  Afinal, assim são as coisas do coração...
E pra terminar, eu espero, baseado na Segunda Lei da Termodinâmica, que o futuro de nossa cidade, seja bem melhor do que foi o nosso passado; afinal o tempo sempre corre para a frente!

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