Um dia desses, eu estava na livraria Cultura fazendo hora para ensaiar com minha banda de blues e encontrei um livro do Oliver Sacks que se chama Alucinações Musicais. Gostei do título e da capa. Determinadas combinações de cores me atraem e confesso que já comprei muitos livros e discos pela capa, sem qualquer recomendação prévia. Até onde consigo lembrar não me arrependi em nenhuma escolha. Mas não quero escrever sobre este livro que ainda não li. Ele vai ter que esperar a fila andar, como se diz hoje em dia, desde que sou um ser unidimensional quando leio. Sou fiel a meus livros e me relaciono intensamente somente com um de cada vez. Vou escrever sobre música que é o meu amor, provavelmente, mais antigo.
O que realmente importa é o efeito que a música tem sobre mim e sobre um monte de gente. Já pincelei este assunto num outro texto. Como muitos sabem, existe um poder terapêutico no ato de participar de um encontro musical, seja como ouvinte, seja como músico. Pessoas com algum tipo de limitação libertam-se quando fazem parte de um coral, por exemplo. Outros, simplesmente ao ouvir um determinado tipo de música melhoram de humor e o dia fica melhor. A neurociência demonstra os benefícios da música em vários cenários, alguns desoladores.
Como ainda, espero ter tempo o suficiente neste planeta a coisa é mais frugal, e quando toco é com se viajasse no referencial do instrumento. Uma vez li que um contrabaixista famoso quando tocava, ele e seu instrumento tornavam-se uma coisa só. É mais ou menos por aí. Entro num estado catártico e por algum tempo tudo fica melhor, não há público, não há nada que me tire deste instante e não há limites entre o meu braço e o do instrumento. Nestes intervalos não sei conscientemente o que faço mas a coisa funciona. Como cada momento é particular, nunca toco uma música de um mesmo jeito. Esta é a beleza da história. Diversas possibilidades inconscientes.
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