Sou professor universitário e trabalhava em uma instituição de ensino voltada à tecnologia de informação. Depois de meses sem receber salários e ter qualquer direito trabalhista recolhido, alguns professores, dentre os quais me incluo, resolveram entrar em greve. Os detalhes não merecem ser discutidos, mas no final das contas fomos todos demitidos ilegalmente por justa causa, fato que estamos contestanto judicialmente. Mas não é sobre greve que quero falar ou de direitos constitucionalmente garantidos aos trabalhadores. Deixo estes assuntos para algum advogado versado. Quero mesmo contar dos meus colegas de luta.
Descobri, com todo este fuzuê, pessoas honradas, abnegadas com princípios rígidos de profissionalismo e honestidade que, confesso, me deram esperança num futuro melhor para as terras de Santa Cruz. Eu andava sem ar ultimamente, desesperançoso numa melhora da situação deste país. Nem preciso dizer que todo dia somos bombardeados com manchetes acerca da corrupção, dos esquemas, das negociatas que tanto contribuem para o atravancamento de nossa sociedade e mais que isso, muitas vezes vivendo estas situações em instituições onde não deveriam ocorrer! De algum modo, tudo isto estava me afetando negativamente. Afinal que futuro podemos esperar se não formos agentes ativos na história?
Bem, percebi que ainda existem pessoas que se importam com direitos fundamentais dos cidadãos deste país, e juntos, lutamos por eles, discutimos estratégias de combate, fizemos barulho, denunciamos pública e judicialmente nossos empregadores mal-intencionados que nada mais são do que párias descumpridores das leis trabalhistas. Em qualquer outro lugar onde quer que se leve a justiça a sério, tais pessoas estariam em maus lençóis. Mas estamos no Brasil, a maior república de bananas que existe, não nos esqueçamos disso. Ainda brigaremos muito para obter algum resultado favorável.
O importante é que, de certo modo um moleque de dezoito anos foi resgatado dentro de mim e vi-me novamente na Av. Paulista fazendo panfletagem, coisa que não fazia há 18 anos, desde os tempos da redemocratização. Em 1989 a causa era mais abrangente é verdade, mas o espírito de luta contra o que julgamos errado estava lá no ar, em cada semblante dos meus amigos (acho que posso chamá-los assim). Tudo isto, contribuiu para que eu me sentisse vivo novamente! A sensação tem sido indescritível! Qualquer frase dita estará muito aquém do sentimento.
O romantismo, que do lado amoroso considero a pior invenção humana (isto é assunto para um outro texto), está de volta, por uma causa justa que une mentes e corações destes abnegados. A paixão pela luta voltou e, graças a meus queridos amigos, uma redenção com minha consciência se estabeleceu. O melhor de tudo, é que descobri (ou redescobri) em mim o mesmo garoto de antes, com todos os fardos e levezas que a idade carrega, com praticamente os mesmos sonhos e ideais, e isto, meu caro leitor, é muito bom.
E.