segunda-feira, 3 de novembro de 2025

E lá se vai...

O Lô Borges, um dos meus heróis musicais, morreu!

Ainda estou atordoado! Afinal de contas, esses caras - esses gênios- que tanto fizeram pela vida da gente, mesmo sem querer ou saber, através de suas canções, deveriam viver para sempre. O corpo físico segue sua jornada voltando a virar poeira de estrelas mas sua obra - já música clássica brasileira- permanecerá até muito depois de mim e de nós todos.

Mas falar do Lô, ou da música do Clube da Esquina, é também voltar no tempo, para os céus outonais/invernais da minha terra, quase Minas Gerais. É voltar para uma época onde se gravava fitas K-7 pra menina amada, de querer compartilhar tantas canções maviosas na esperança de que houvesse uma mínima compreensão da infinitude dos sentimentos que só poderiam ser descritos pelas melodias e letras das canções, já que palavras sozinhas eram insuficientes.

Falar do Lô também é voltar para o meu quarto do velho apartamento dos meus pais onde eu ficava tirando suas músicas no violão, viajando nas letras de seus parceiros também geniais. E mais tarde, tentando compor as minhas próprias viagens fincadas nas raízes de sua obra.

O tempo passou, todo mundo e o mundo mudou, os trilhos seguiram direções distintas mas suas harmonias, melodias e canções estão aqui.

Se eu cantar, não chore não

 É só poesia

 Eu só preciso ter você

Por mais um dia
 Ainda gosto de dançar
 Bom dia
 Como vai você?
 
Lô voltou pro universo não sem antes fazer desse mundo um lugar muito melhor. 

 

segunda-feira, 12 de agosto de 2024

Sonho

É noite de inverno,

um casal abraçado

de sorrisos leves,

de rostos colados,

tem a claridade das estrelas como pano de fundo,

o espaço-tempo é um lugar indefinido,

os semblantes, estes já vividos,

ele diz tudo o que nunca conseguiu,

e, mesmo assim, não chega perto de descrever

o seu amor infinito 

a cena se esvai, o sonho acorda

ele sozinho,

será que um dia ela vai entender?




domingo, 21 de julho de 2024

O passado

  O passado pode ser um lugar ambíguo na vida da gente.  Ele já aconteceu e se por um lado nossas lembranças, pelo menos algumas, esvaem-se com os anos, outras permanecem absolutamente cristalinas na memória e eventualmente somos pegos na tentação de querer revivê-las. Não existe engano maior do que este.

 Eventos, relacionamentos -fugazes ou não- e tantos outras coisas e fatos, teimam em aparecer com alguma frequência nesses quebra-cabeças mentais e, a pergunta que os acompanha é: Será que foram assim mesmo? Talvez o que nos aterrorize mais seja o fato de que os personagens envolvidos podem não se lembrar de nada sobre um dado evento. E daí a dúvida narcísica aparece: 'Poxa, foi tão importante para mim e fulano(a) esqueceu? '. São os jogos mentais que nos atormentam e que, certamente, devem ser estudados por psicanalistas e neurocientistas.

Pessoalmente, meu passado não me atormenta mais do que o esperado. Sempre tentei resolver as pendências na medida do possível. Claro que meus demônios -que aparecem na forma de arrependimentos constrangedores e que minha mente insiste em não apagar-  ajudam-me a navegar neste tecido cheio de dobras que é a vida.

Voltando ao início, gosto de encarar o passado como uma escola que foi boa mas que também teve suas dores.  Em geral as memórias são muito boas e me acalentam quando voltam mas é um lugar para o qual não tenho a menor vontade de voltar e deste modo, evitar o autoengano.

quinta-feira, 11 de julho de 2024

Dois anos depois e alguns pensamentos nada originais

E cá estou no meio das minhas férias tentando arrumar coisas pra fazer e não cair no tédio. Hoje lembrei que este blog existe e, embora faça quase dois anos que não escrevo, tentarei rabiscar algo.

Não posso reclamar deste período silencioso ou nada silencioso pois tem uma banda nova acontecendo -tocar sempre me dá muito prazer e retarda meu envelhecimento interno. Música sempre foi e será minha melhor terapia. Ouvir, descobrir sons novos e não tão novos. Tenho gostado cada vez mais de coisas antigas e tento não me tornar conservador neste sentido. Espero morrer ouvindo também coisas diferentes daquelas que me formaram musical e afetivamente, embora minha lista de discos numa ilha deserta por enquanto seja imutável.

Os filhos estão crescendo e tenho a sensação que tenho me tornando cada vez menos interessante pra eles. A vida engole a gente sem pestanejar. Gosto que estejam criando asas e me parece que estão se tornando pessoas decentes e claro, tenho minha fatia de responsabilidade, assim como a mãe e as pessoas próximas. Não gosto de quantificar as coisas e há ainda muito trabalho a ser feito, correções de rumo, etc. Como costumo dizer, continuo aprendendo a ser pai.

Embora a humanidade esteja melhor do que há séculos - não, ela não aconteceu como eu esperava - tenho a impressão que, na balança da história, estejamos pendendo para um novo tipo de totalitarismo que tem deslocado os progressistas para uma região mais central do espectro que pode envolver tanto a esquerda quanto a direita. Ou talvez seja algo mais simples como somente o mundo tentando sair da crise causada pela pandemia e neste cenário, não é fácil ser governo. Neste país em particular a falta de caráter ideológico é tão grande que tenho dificuldade em nomear as coisas sob este prisma e, tenho mesmo a sensação, que minha geração morrerá tentando reverter os danos que esta época nos apresenta. 

Enfim, espero ser mais constante do que tenho sido.



quinta-feira, 22 de setembro de 2022

The Who, um texto perdido de 2017

 Hora de voltar pro meu quarto nos anos 80.

O disco era de um amigo do colégio. Um The Who ao vivo no Canadá se bem me lembro. 
No repertório daquele show Summertime Blues, Substitute, Love Reign Over Me, Boris the Spyder, Baba O'Riley e outros petardos que me fisgaram na hora. Demorei semanas pra devolver o vinil e tinha esperança de incorporá-lo aos meus, mas não teve jeito.
Lá se foram três décadas, muitos discos e finalmente os assisti. É bem verdade que só dois dos três integrantes que estavam vivos na época deste show do vinil continuam por aqui. Keith Moon era o baterista mais selvagem do rock mas já havia morrido (Kenny Jones era seu substituto). Hoje as baquetas estão na mão de Zak Starkey, um herdeiro da realeza, filho de ninguém menos que Ringo Starr, compadre do Mooney. O rapaz teve escola e é tão competente quanto seus pai e padrinho. John Entwistle, o baixista mais irado do universo, viveu e morreu como quis, um rock star, e faz uma putza falta. Claro que para se tocar com o The Who é preciso colhões e o baixista atual Jon Button segura as linhas absurdas com competência num fender precision bass, mas não é The Ox. Roger Daltrey continua com seus malabarismos com o microfone e sua voz ainda dá conta do recado. Pete Townshend é um selvagem que se recusa a envelhecer quando está com a sua fender stratocaster em punho. Do mesmo calibre de gênios de sua geração tanto em seu instrumento quanto como compositor. Os caras detonaram! Juntos de um time muito competente de músicos, fizeram um showzaço, mesmo errando a introdução de My Generation. Who cares? Foram salvos pelo público embevecido.
I hope I die before I get old não rolou pra eles. Ainda bem! 
Assim, pude ouvir e ver quase todos os seus grandes clássicos em versões matadoras. Um atrás do outro que mal dava pra respirar. Só consigo sentir-me agradecido por assisti-los, ainda vigorosos, modernos, com uma mise-en-scène de cair o queixo. Volto pra casa bem feliz.
Long live rock!

domingo, 22 de maio de 2022

Um textinho perdido

 Parte do nosso mundo, seja ele presente ou passado, vai embora com nossas perdas. Resta-nos continuar, do jeito que der, lambendo as feridas, construindo e desconstruindo relações e a nós mesmos. E pensando, sempre pensando....

O Sol continuará lá, nos dando vida e nos ameaçando dioturnamente, as estações do ano continuarão a mudar e as manhãs, todas elas impiedosamente, virão nos lembrar de tudo, de absolutamente tudo.

sexta-feira, 22 de abril de 2022

A vida pode

A vida pode ser um rascunho mal acabado

ou uma peça bem fechada

com começo, meio e finais bem ajambrados.


A vida pode ser uma viagem infinita

pela busca do imponderável

do amor nunca encontrado


A vida pode ser uma viagem interrompida

na qual cada segundo valeu outra vida













sábado, 22 de janeiro de 2022

Mariana

De volta à Terra dos Papagaios. Este é um lugar comum mas a coisa que mais me encanta em viajar é trocar experiências e conversas com ilustres desconhecidos que dificilmente verei novamente mas que naqueles breves momentos alimentam minha alma (eu não acredito em alma então essa é uma frase retórica) com histórias, experiências que me comovem ou trazem qualquer outro sentimento bacana. Desta vez foram alguns e hoje falarei de Mariana, uma enfermeira argentina que mora em Roma há muitos anos. O começo da interação foi meio tenso: Ela parecia arredia e disse que o casaco da minha mulher a molestava mas com uma caixa de chocolates depois colocados na mesa pela brasiliense-pernambucana tudo já estava bem. Estávamos sentados com mais um casal argentino, Sérgio e Sandra (torcedora fanática de algum time que já esqueci) e muito legais, ambos "informáticos" e com um grau de cinismo e razoabilidade raros se comparados com um brasileiro médio quando se fala de política que foi, claro, parte do assunto. E com Mariana, quando começamos a perguntar feito doidos (é isso o que dá quando se junta um físico e uma jornalista) descobrimos que ela estava fora há muito tempo, desde os anos 70 e que voltou apenas ocasionalmente para sua terra natal neste tempo todo. Fora sequestrada e levada para o centro de tortura dos militares, a famigerada Escola Mecânica da Armada e escapou por pouco de ter sido morta naquelas operações funestas dos milicos hermanos. Foi-se embora e construiu sua vida na Itália e voltar pra ela, já quase sem familiares vivos, era algo agridoce e isso me comoveu durante todo o percurso entre glaciares e icebergs. Que roteiro daria sua vida, fiquei pensando! Já no desembarque, efusivamente nos abraçamos, nos beijamos como se nos conhecêssemos há muito tempo e não mais a tirei de minha cabeça. Ela voltaria pra Roma dois dias depois e a gente seguiria pela patagônia. E eu não poderia concordar mais com ela do que quando lançando um olhar com seus olhos verdes profundos me disse: Macri és un hijo de puta! Mulher de fibra Mariana!

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

A Bailarina


"Os olhos apagados acendem na escuridão da memória

as mãos dançam no tecido do espaço-tempo

o torso se dobra, o corpo lembra 

Ela se deixa levar pelos movimentos

voltando no tempo pra viver mais uma vez

pra ser feliz, pela última vez"


sexta-feira, 13 de novembro de 2020

Primeiro Filho

Lembro-me bem do dia quando sua mãe me contou que estava grávida que pensei comigo que minha vida não seria mais minha. Foi uma mistura de medo e encantamento, de insegurança, de quase paralisia. Logo eu que nunca havia pensado seriamente sobre a paternidade.

Lembro-me que indo pra maternidade eu ficava pensando nas músicas que ouvia naquele dia e que me lembraria delas. Não, não lembro! Mas lembro que ele teve icterícia e precisou ficar no ultra violeta por um ou dois dias depois de nascer. Lembro-me de que passei muito tempo com ele no seu primeiro ano, dos banhos, das infinitas fraldas trocadas, de quando ele caiu da maca da pediatra e tivemos que fazer uma tomografia, de como, numa véspera de ano novo e de viagem pra Serra Negra, ele saiu engatinhando e rolou escada abaixo e, de novo outra tomografia. De quando ele prendeu o braço numa porta de vidro temperado em casa e tive que quebrá-la para liberá-lo, de quando escalou uma TV antiga, ainda de tubo e super pesada, que caiu sobre sua perna e felizmente só o cortou de leve mas o susto foi imenso, pânico na verdade. Lembro-me dos seus primeiros passos e aprendizados na escola, das aulas e apresentações de teatro, do judô e da natação, dele com seu avô (meu pai) em Serra Negra, dele com sua bandinha do colégio no primeiro show e de tantas outras coisas maravilhosas que ele me trouxe e ainda traz.

É, o medo passou a fazer parte da minha vida mas a felicidade de vê-lo crescer, de acompanhar cada fase de seu desenvolvimento é algo que não consigo descrever de tão bom. Melhor ainda, ele está se tornando um rapaz bacana, educado, gentil com os outros e me enche de orgulho, embora eu não me furte de pagar no seu pé. Claro que ele vai errar muito, como todos nós, e vai ter sua própria vida me "matando psicanalitcamente" daqui um tempo, mas espero que tenha capacidade de corrigir seus rumos.. O que quero é só que ele seja feliz, tente acertar em suas escolhas e julgamentos.

Espero estar muito tempo por aqui caso ele precise e, caso eu não esteja que ele lembre da régua sob a qual está sendo criado e que isso possa ajudá-lo. Assim terei acertado.